Além de ser uma trama repleta de memórias que nos conectam emocionalmente com os personagens, principalmente com a Ponciá, o enredo retrata e analisa questões raciais, como podemos perceber no sobrenome Vicêncio que era herança da escravidão negra, pertencente ao Coronel que foi dono dos bisavós de Ponciá. Além disso, o enredo nos mostra a exploração do trabalho no campo, a migração do campo para a cidades, o analfabetismo, entre outros tantos temas importantes.
Mas ele fala, sobretudo, sobre memórias, sobre a busca por sentido através da conexão ancestral.
As raízes de Ponciá e a herança do barro
Ponciá ainda menina, perdeu o avô ainda criança. Assim, ela vivia em uma casa na zona rural, com seu irmão e sua mãe, trabalhando no campo e modelando o barro.
Ela ouviu falar que ganhou uma herança de seu avô, que fica subentendida que não é algo material, e ela era muito pequena quando ele faleceu, então quase nada sabe sobre ele, exceto o fato de que parecia que ela o imitava sem querer. Diziam que ela, assim como ele, gostava de olhar o vazio.
A migração para a cidade grande e as ausências
Ponciá, algum tempo depois da morte do pai, de repente se sentiu cansada de sua vida ali, trabalhando com o barro, de ver que tudo o que era ganho nas colheitas ia parar nas mãos dos coronéis. Ela desejou a vida da cidade, sonhando que se realizaria por lá. Assim, tomou o trem e saiu do povoado.
No entanto, quando ela chegou lá, ela não soube o que fazer. Com muito empenho, conseguiu um trabalho porque sabia ler e isso a ajudou a dar os primeiros passos. Então, ela passou a fazer planos: conseguiria dinheiro, construiria uma casa e traria o irmão e a mãe para morarem com ela.
Mas, toda vez que ela voltava para a casa onde ela morava com sua família, não os encontra lá. Só se depara com as memórias que a acompanham de volta à cidade. A mesma cidade para a qual o seu irmão também vai à procura dela. E, curiosamente, a mãe, que permanece no lugar de origem, também deseja encontrar seus filhos.
Todos eles visitam essa mesma casa que se torna ponto de encontro de suas ausências, marcadas pelos rastros de memórias. Por isso essa escrita é arrebatadora, porque queremos que esse reencontro aconteça, mas ele parece nos escapar quando estamos prestes a alcançá-lo.
Mitologia Iorubá e a conexão ancestral em Conceição Evaristo
A arte com o barro também é ponto de conexão na narrativa. É ela que sugere a presença ancestral, a relação com as raízes, afinal, era isso que Ponciá fazia antes de ir arriscar a vida na cidade.
Aqui também podemos relacionar um pouco da mitologia iorubá, na criação com o barro, por exemplo, que é o que sempre faz com que Ponciá sinta que deseja voltar para o lugar de onde veio, como se através do manuseio do barro ela pudesse preencher o vazio de sua existência.
Os processos emocionais e o sistema social
Ponciá conhece um homem e ele se torna seu marido, mas diante de alguns comportamentos estranhos dela, ela acaba virando alvo de violência doméstica. Logo também o homem percebe que o comportamento dela não é normal e se arrepende pelo mal que fez e nunca mais encosta nela.
Então, não só diante desse fato, percebemos o quanto cada personagem carrega seus processos emocionais e que não nos cabe julgá-los pelo que fizeram, pois todos que nos são apresentados são também vítimas de um sistema social.
Considerações finais
Além de ser um enredo belamente escrito com sua prosa e poesia, ele nos impacta por aquilo que não é dito ou explicado, e quando menos percebemos, estamos ali, de mãos dadas com Ponciá, mesmo que ela possa estar imersa em suas ausências, como é próprio da solidão do ser humano.
E você, já leu algum livro de Conceição Evaristo? Me conta aqui nos comentários.






