Muitas memórias se perdem no tempo, navegando pelos oceanos e escondendo-se nos recantos de antigos navios. Foi assim que, em 1874, milhares de imigrantes italianos deixaram suas famílias e terras natais em busca de melhores oportunidades no Brasil.
Naquele ano, o navio La Sofia partiu de Gênova trazendo centenas de imigrantes que enfrentaram 41 dias de viagem em condições adversas, expostos à fome e às doenças que assolavam as embarcações da época. O navio chegou em 17 de fevereiro, mas o porto não tinha estrutura para receber embarcações de grande porte. Assim, eles tiveram que aguardar até que, finalmente, em 21 de fevereiro, 388 imigrantes trentinos e vênetos desembarcassem no Espírito Santo.
Décadas depois, durante o governo de Getúlio Vargas, o uso de línguas estrangeiras foi proibido, incluindo o italiano. Muitos imigrantes se calaram, deixando de compartilhar suas histórias. Por isso, conheço pouco sobre minha família e tenho buscado descobrir mais. Minha árvore genealógica é diversa, com raízes indígenas, negras, alemãs e italianas. Aliás, minha avó paterna era italiana; ela faleceu há três anos, antes que eu tivesse a chance de ouvir mais sobre suas memórias.
Tive o privilégio de crescer no interior, acompanhando a jornada de pais agricultores e morando ao lado da casa da minha nonna. Tenho lembranças dos almoços de domingo, com mesas fartas, conversas na cozinha, crianças correndo pela casa e meus pais e tios falando alto enquanto jogavam intermináveis partidas de tressette.
Lembro-me de passar horas sob as parreiras de uva com meus primos, ora colocando os cachos na cesta, ora tirando-os para comer. Minha nonna nos chamava pela janela para nos apressar para o almoço, pedindo que não corrêssemos pelo jardim e não estragássemos as hortênsias que ela tanto amava.
Essas lembranças da infância são um tesouro para mim, mas sei pouco sobre a vida de minha avó. Sei ainda menos sobre seus pais, avós ou bisavós — aqueles que atravessaram o oceano. Ela raramente falava sua língua materna, mas guardava consigo as memórias que, hoje, me fazem querer atravessar o Atlântico para encontrar o caminho de volta à sua terra natal.
Ao revisitar fotos que capturam fragmentos de nossa história, sinto a necessidade de fazer essa travessia, tornando-me uma ponte entre as culturas de minhas origens, unindo passado e presente na esperança de me tornar uma ancestral do futuro. Por isso, o dia 21 de fevereiro é tão importante. Como Dia Nacional do Imigrante Italiano, ele celebra as milhares de vidas que nos deram a oportunidade de estar aqui. Honrar a coragem e a determinação de nossos antepassados, que deixaram tudo para trás para construir novas histórias, é a forma mais bela de reconhecer as origens da nossa terra.
Se estamos aqui, é graças a eles. E agora, ao olhar para essa trajetória que ainda não desvendei por completo, percebo que é como voltar à casa da minha nonna — mas, desta vez, com um novo olhar e o coração repleto de gratidão. Quero criar a oportunidade de contar aos meus filhos e netos as histórias que minha nonna não pôde compartilhar. Quero manter vivo o legado dessa jornada.
Independentemente de suas origens serem italianas ou não, convido você a celebrar essa data alla italiana: com muita alegria, boa comida e junto daqueles que ama.
Conheça meu novo romance:
A avó que você conheceu nestas linhas — a mulher das hortênsias e dos jantares de domingo — é o pilar invisível de O Despertar da Bruxa. Escrever este livro foi a minha forma de conversar com ela uma última vez. Foi a minha maneira de atravessar o oceano que nos separava e encontrar, na ficção, as verdades que a vida não teve tempo de me contar.
Se você também sente que há histórias correndo em seu sangue que ainda precisam ser despertadas, convido você a embarcar nesta jornada comigo:


