Era uma tarde fria de outono, daquelas mais cinzentas, com nuvens que denunciavam um possível presságio de chuva.
Em casa, em um final de semana qualquer, eu estava imersa na leitura de um livro, contemplando minha solitude, mas havia algo que, de algum modo, me incomodava internamente, e eu realmente precisava conversar com alguém sobre o que se passava.
Inquieta pela vontade de colocar meus pés para fora de casa — ou resistir e permanecer no aconchego do meu lar —, busquei meu celular e enviei uma mensagem para a única pessoa possível naquele momento, que com certeza me ouviria de coração aberto (pelo menos, era isso o que eu esperava).
Ela prontamente atendeu ao meu pedido, e combinamos de nos encontrar em um café dentro de alguns minutos (aliás, recomendo, porque já aquece o coração).
Muitas vezes, sinto que preciso de algum tipo de acolhimento — e aqui eu falo sobre ser ouvida por alguém sem ser julgada (e essa pessoa não precisa, necessariamente, ser sua terapeuta). Todos nós temos problemas, e a maioria acontece do lado de dentro da gente.
Bem, voltando ao episódio do café: quando ela chegou, logo a agradeci por ter aceitado meu convite. E o fato é que, em determinado ponto do monólogo (porque era só eu quem falava e ela só me ouvia), ela me pediu desculpas.
Sim, desculpas. Você não leu errado.
Ela se desculpou por não conseguir me ouvir. Naquele mesmo momento, comecei a prestar atenção no que havia dito a ela. Será mesmo que o que eu estava falando fazia algum sentido? Não para ela, mas para mim?
Silenciei por um momento e percebi um pouco de tristeza em seus olhos. Foi aí que entendi: ela não estava ali apenas por minha causa, mas também por ela. E, ao final, nós estávamos uma pela outra.
Costumo dizer que há coisas que só uma amiga pode fazer, como é o caso ouvir um pedido de ajuda como esse (homens, me perdoem — não posso falar por vocês, mas sei que, certamente, deve haver algum tipo de integração entre vocês), e, naquele momento, senti que nós duas precisávamos ter aquela conversa.
É estranho, eu sei. Afinal, saí de casa com a intenção de ser ouvida — e fui, é claro. Mas, quando percebi que ela também precisava desabafar (ou desabar) sobre algo que a estava deixando desconfortável, fechei a boca e encontrei um lugar dentro de mim que pudesse ouvir tudo o que ela precisava me contar.
Penso que o amor é exatamente assim: saber a hora de falar e a hora de calar.
Muitas vezes, não prestamos atenção no que estamos dizendo (como eu fiz, com um assunto aleatório que nem condizia com minha amiga), e acabamos por sobrecarregar o outro. Mas há também um contraponto, que é a escuta autêntica, afinal, eu só queria externalizar o que se passava comigo com alguém de minha confiança.
Minha amiga me pediu desculpas por não conseguir me ouvir. Ela foi sincera, e eu a amo ainda mais por isso. Ela não fingiu que estava tudo bem e que estava me ouvindo — ela foi verdadeira consigo e comigo.
Naquele momento, ela me ensinou algo grandioso, que fiz questão de que ela percebesse: uma amizade não precisa ser perfeita, ela precisa ser verdadeira. Quando tomei consciência de que minha amiga também enfrentava um dia cinza, precisei encontrar as cores dentro de mim para deixar aquele momento um pouco mais leve para nós.
Isso me mostrou que haverão momentos delicados em nossas vidas, em que a gente acredita que não terá nada para oferecer a alguém, mas, na verdade, sempre haverá. Os dias cinzentos fazem parte dos dias ensolarados — mas é preciso ter paciência com as nuvens que escondem as cores do dia.
Ah, quanto ao café: depois que minha amiga passou pela sensação desconfortante de me revelar o que estava sentindo, diante de toda aquela cena, nós começamos a rir como duas crianças e, de alguma forma, o sol, aos poucos, iluminou aquele fim de tarde que já nem era mais tão cinzento assim.






