Se você já assistiu à famosa adaptação da Globo e se apaixonou, prepare-se para conhecer as camadas ainda mais profundas, engraçadas e críticas do texto teatral original. Escrita em 1955, a obra Auto da Compadecida, do mestre Ariano Suassuna, permanece como um dos maiores tesouros da literatura e da dramaturgia brasileira.
Quem foi Ariano Suassuna e o Movimento Armorial?
Nascido na Paraíba, Ariano Suassuna trouxe para a literatura nacional a fala autêntica do povo, o humor do sertão e a sabedoria ancestral dos contadores de história. Seu objetivo nunca foi apenas entreter, mas valorizar a alma do povo nordestino em uma época em que a produção cultural brasileira era fortemente centralizada no Sudeste.
Em 1970, Suassuna fundou o Movimento Armorial, cujo propósito era unir a arte erudita às manifestações populares brasileiras. Ele acreditava que o Brasil deveria olhar para o seu próprio povo, sua terra e suas tradições como fonte legítima e nobre de arte.
O que é um Auto Teatral?
Um auto é uma forma de peça teatral de origem medieval, composta por conteúdo religioso ou moral, que utiliza o humor e tipos populares para transmitir ensinamentos. No Brasil, outro exemplo consagrado é o Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente.
Em Auto da Compadecida, Suassuna genializou o formato ao mesclar:
Comédia e farsa popular;
Drama e teatro religioso;
Crítica social afiada e atual.
As aventuras de João Grilo e Chicó
A trama se desdobra em volta de dois personagens icônicos: João Grilo, o típico espertalhão nordestino que usa a astúcia para sobreviver à miséria, e Chicó, seu amigo covarde e contador de histórias mirabolantes.
A dupla vive uma sucessão de confusões em uma cidadezinha do sertão, lidando com autoridades locais, corrupção, avareza e cangaceiros, até culminar em um épico julgamento no céu.
Chicó, João Grilo e a tradição circense
Uma curiosidade sobre a criação de Chicó é que ele foi inspirado em uma figura real que Ariano conheceu na cidade de Taperoá. Juntos, João Grilo e Chicó reproduzem a clássica dupla da tradição circense: o palhaço esperto e cheio de recursos lado a lado com o palhaço ingênuo e abestalhado.
Temas abordados e a simbologia da Compadecida
Suassuna usa o riso como ferramenta para expor feridas sociais urgentes, como:
Desigualdade e Injustiça Social: A luta diária do sertanejo contra a fome e a opressão.
Hipocrisia Religiosa e Moral: A ganância de figuras que deveriam proteger o povo.
Misericórdia Divina: Representada pela figura da Compadecida (Nossa Senhora).
A Compadecida surge como uma figura maternal e acolhedora, simbolizando a verdadeira justiça divina — aquela que contrasta com a frieza das leis humanas, enxergando os sofrimentos e as reais intenções do coração de cada indivíduo.
Um retrato inesquecível do Brasil
Auto da Compadecida é uma leitura leve na superfície, mas que toca em reflexões filosóficas e espirituais profundas. É uma celebração da linguagem, da fé e da capacidade do brasileiro de encontrar graça e dignidade mesmo diante das maiores adversidades.
E para você, qual personagem é o favorito: a esperteza do João Grilo ou os causos do Chicó? Deixe sua opinião nos comentários.






