A gente vê e sente quando alguém se entrega de verdade. Na expressão do rosto, na determinação da postura, no fulgor dos olhos.
Eu vi tudo isso em um menino que tinha menos de uma década de vida e quase um metro de altura. E ele foi meu professor durante alguns minutos, em uma final de Chula, numa tarde de domingo.
Para quem não sabe o que é a Chula, trata-se de uma dança tradicional sapateada, praticada apenas por homens, com origem em Portugal. Foi trazida ao Brasil durante o período colonial e, ao longo do tempo, foi apropriada e transformada pela cultura gaúcha.
No tradicionalismo, especialmente dentro do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), a Chula tornou-se um símbolo de destreza e resistência, sendo apresentada individualmente por peões que executam uma série de passos sapateados em torno de uma lança disposta no chão, que não pode ser tocada durante a performance, ao som da música regional. Em tempos antigos, dizia-se que o vencedor da Chula ganhava o direito de dançar com a prenda no baile. Hoje, ela é uma das provas mais prestigiadas do ENART (Encontro de Artes e Tradição Gaúcha), especialmente pela sua complexidade e beleza técnica.
Voltemos ao menino em questão, que fazia parte das apresentações mirins e dançava com tanta dedicação que sua energia ressoava no tablado. Eu vi todo o empenho e a entrega de sua jovem vida sendo amarrada à arte, assim como aquele lenço vermelho que pendia orgulhosamente em seu pescoço.
O que mais me encantou foi o quanto ele me emocionou com seus passos de Chula.
A dança nada mais é do que batidas ritmadas ao som de um compasso marcado pelas botas no chão, que podem ser mais lentas ou mais rápidas, a depender do nível de desafio da competição. Mas ali, naquele momento tão singular, percebi algo além disso. A batida da bota no chão era também a da resistência, da bravura, da coragem que nos mantém determinados em nossos sonhos.
Talvez eu escreva essa reflexão apenas para mim, caro leitor, mas seria egoísmo não compartilhar algo que pode tocar o coração de alguém.
Dizem que só ficamos bons em algo se praticarmos até alcançar a excelência (e pode ser que nunca a encontremos, mas que, ainda assim, não desistamos de praticar). E, assistindo à apresentação daquele menino tão pequeno, tão jovem e tão intenso, foi impossível não perceber o quanto ele se preparou para entregar o melhor naquele palco improvisado.
Você não precisa conhecer o sapateado para saber que ele não é uma das danças mais fáceis de executar. A questão é que, além do nível de dificuldade, quantas vezes ele não se machucou tentando ficar bom para aquela apresentação de apenas dois minutos, da qual dependia a sua premiação naquele evento?
Bem, nós não sabemos. E, como se diz aqui no Sul, ele deve ter sido criado em galpão — o que só aumenta sua devoção pela arte.
O mais interessante era que, toda vez que ele terminava sua performance, com o som da bota ainda ressoando no tablado, o olhar fixo em seu adversário em tom desafiador, ainda cheio de energia, ele nos mostrava o quão intimidador podemos ser quando acreditamos em nós mesmos. Com o sangue pulsante no corpo e os olhos acesos, ele encarava o adversário como se dissesse, sem precisar de palavras: eu lutei pelo meu sonho.
Ele acreditou tanto que podia fazer aquilo e fez. Foi estrondosamente ovacionado por todos que estavam ali. Ao meu redor, ouvia vozes dizendo: “Esse tem futuro.”
Na verdade, todos temos futuro. Mas nem todos temos o sangue nos olhos que aquele menino tem. É só isso o que nos separa dos nossos sonhos: o quanto estamos dispostos a enfrentar o nosso adversário e intimidá-lo com a nossa determinação.
Enquanto na Chula existe um duelo de pessoas, na vida real a gente só precisa vencer o nosso concorrente interior. E vencer o nosso eu que desacredita do nosso potencial requer muito sangue nos olhos.
Mas, assim como o nosso pequeno chuleador, que saibamos bater firme o pé no chão quando o nosso adversário nos confrontar. E que o eco de nossas botas ressoe por onde quer que venhamos a levar a nossa arte.






