Antigamente éramos queimadas em fogueiras; hoje também somos, só que por fogueiras em formas diferentes. A indicação de leitura de hoje nos mostra que, infelizmente, estamos longe de escapar dessa triste realidade.
Se você se interessa por temas profundos e comoventes, por tramas que resgatam a importância da ancestralidade e da cura, você precisa conhecer essa história.
Duas mulheres, duas realidades e a busca pela vontade de viver
Bruxas, da autora mexicana Brenda Lozano, é o seu primeiro livro publicado no Brasil. Com tradução de Silvia Massimini Felix, a obra foi lançada pela editora Companhia das Letras e nos apresenta a duas personagens marcantes: Zoé e Feliciana.
A narrativa tem como ponto de partida a notícia do assassinato de Paloma (que antes era chamada de Gaspar). Os caminhos de Zoé e Feliciana se cruzam logo no início, quando o crime se torna o motivo central para que Zoé, como jornalista em uma metrópole mexicana, aceite escrever um artigo sobre o caso, transformando sua dor e indignação em denúncia contra a violência de gênero.
Paloma era muxe — no estado de Oaxaca, situado no sul do México, o termo designa um gênero que não é considerado nem estritamente feminino, nem masculino. Nas culturas zapotecas, muxes são pessoas não binárias que se expressam no gênero feminino, embora tenham sido designadas como masculinas ao nascer, sendo compreendidas como um terceiro gênero.
Embora ajudasse o pai de Feliciana nas veladas (vigílias de cura feitas por xamãs nos rituais dos mazatecas), Paloma sentia necessidade de passar tempo com os homens para se satisfazer sexualmente, o que a acabou afastando um pouco da Linguagem.
Feliciana e a sabedoria ancestral da linguagem
Tudo o que Zoé sabia sobre Feliciana era que se tratava de uma célebre curandeira da Linguagem — a curandeira viva mais famosa da região. Nas cerimônias, ela usava o poder das palavras para curar pessoas milagrosamente.
Sua fama atraía artistas, cineastas, escritores e músicos de várias partes do mundo, assim como milhares de pessoas comuns que peregrinavam até o povoado de San Felipe, escondido nas montanhas do México, na esperança de se libertarem de suas enfermidades. Zoé sabia da existência de livros, filmes e obras inspirados nessas visitas, e sabia também que tinha sido Paloma quem iniciara Feliciana como curandeira.
Feliciana sofreu preconceito por ser a primeira mulher curandeira em uma tradição dominada por homens. Ela só consegue realizar as curas e se entregar plenamente ao poder da Linguagem após ficar viúva.
No livro, há uma definição muito bonita que Feliciana dá a si mesma ao diferenciar os termos xamã, curandeira e bruxa:
“A curandeira cuida do corpo das pessoas com suas misturas e ervas; já a xamã cura aquilo que não pertence ao corpo físico, mas às suas águas profundas — o passado, a memória e as emoções.”
O encontro entre a razão e a intuição
Embora Zoé se mostre cética em relação a todo o contexto espiritual apresentado por Feliciana, ela se vê obrigada a admitir que nunca havia entendido a poderosa intuição de sua própria mãe.
Assim, diante de duas realidades completamente opostas, as narrativas das duas mulheres revelam suas semelhanças através de depoimentos sinceros sobre medo, anseios, violências e afetos.
Mesmo que a história comece com a notícia da morte de Paloma, o objetivo do enredo não é descobrir quem a matou. O foco principal é acompanhar a história de duas mulheres que precisaram recordar a magia e a força que habitam no poder feminino.
Uma jornada sobre cura e autoconhecimento
Com 220 páginas, o livro é dividido em capítulos que alternam as narrativas em primeira pessoa de Feliciana e Zoé.
Bruxas está longe de ser um livro trágico. Ele fala sobre cura — uma cura que pode vir de inúmeras formas, a começar pelo conhecimento acerca de si mesmo, por confiar no misterioso poder da intuição, acolher a sensibilidade humana e honrar os nossos ancestrais.
Na minha visão, este livro veio para devolver o poder feminino, pois, quando fechamos os olhos, somos capazes de enxergar muito além do que o mundo nos mostra.
Este não é um livro para todo mundo. É uma leitura recomendada para aqueles que estão dispostos a conhecer uma tradição ancestral, a se conectar com suas emoções e a entender que, para a cura acontecer, é preciso ter a coragem de olhar para as feridas.
E você, já conhecia Bruxas? Deixe seu comentário aqui embaixo me contando o que achou dessa indicação e compartilhe este post com quem também busca leituras transformadoras.
Um abraço literário e até o próximo post!
