Não sei se você concordará comigo, mas às vezes tenho a impressão de que nos tornamos adultos tão cheios de certezas que até parece que já conhecemos todas as verdades. E isso é uma mentira. Quanto mais ficamos presos a esse pensamento, mais deixamos de aprender o que a vida tem a nos ensinar — e ela só ensina aqueles que estão disponíveis para aprender.
Quem mais nos ensina que precisamos aprender a aprender são as crianças.
São elas que carregam a inocência, a pureza e a curiosidade no olhar de quem descobre o mundo e se lança nele em busca de aventura.
Ser criança dá um trabalho danado, não sei se você sabe.
Requer confiança para soltar a mão daquilo que parece correto e sair correndo pela vida sem um destino certo, mas com o coração cheio de sonhos. É provável que nessa corrida nos machuquemos, que tenhamos uma coleção de joelhos ralados, mas a bagagem de descobertas que nos acompanhará recompensará todas as pequenas quedas que tivermos ao longo do caminho.
E por que nos distanciamos tanto da nossa criança? Por que insistimos em moldar esses grandes mestres que moram dentro de nós?
Primeiro, porque passamos uma vida inteira tentando nos enquadrar em coisas que não fazem sentido. É isso o que nos ensinam ao longo dos anos — que precisamos nos adaptar a realidades que nem sabemos se queremos. Concordo muito com o pensamento do meu professor e escritor Daniel Munduruku, quando diz:
“Os indígenas não perguntam para uma criança o que ela quer ser quando crescer, porque ela já é quem poderia ser: criança.”
Ser criança, aqui, significa justamente manter a essência de quem somos — a mesma com a qual viemos ao mundo —, mas da qual, conforme crescemos, nos afastamos, acabando por perder nossa coerência interna.
Esquecemos o que nos despertava para o novo, para as pequenas alegrias da vida. Deixamos de rir das coisas simples para nos enclausurar em edifícios de concreto que nos impedem de olhar para fora, para a beleza que o mundo tem.
Confesso que demorei para perceber isso, mas, com o passar do tempo, busquei encontrar essa criança em algum lugar dentro de mim.
Tentei descobrir qual era a sua brincadeira favorita, o sabor do sorvete predileto, as músicas que mais gostava de dançar e cantar, quais eram os seus maiores sonhos. Foi um presente quando ela me abraçou de volta e me mostrou todas as aventuras que poderíamos viver juntas, sem soltar nossas mãos. Ela é inocente, dona de uma pureza que nós, adultos rígidos e engessados, já não temos.
A criança é corajosa, não porque não sente medo, mas porque sabe agir com o coração.
Ela não se prende ao que não sabe, mas ao que ainda pode aprender; e aprende justamente porque reconhece que nada sabe sobre a vida. Então, tudo é novidade. Tudo é aventura e não há motivo para temer o desconhecido.
Ela pinta o mundo com sua paleta de cores e, se não encontra uma que combine com o que almeja, é provável que crie uma nova.
Acredita tanto que pode fazer tudo o que deseja que não lhe sobra energia para pensar o contrário. É claro que sempre haverá quem a veja com maus olhos, quem tente desanimá-la ou encaixá-la em padrões. Mas, como toda criança, ela mostra a língua e sai correndo — porque sabe que não pode faltar com respeito a si mesma.
A minha criança incomoda, sobretudo, aqueles que têm medo de ser criança.
O que é triste, porque a vida se torna muito mais leve quando há espaço para a brincadeira. Precisamos, com certa urgência, resgatar a arte de aprender a brincar.
Então, encontre a sua criança, convide-a para um passeio despretensioso, pule amarelinha na calçada da vida, brinque de pega-pega com a inspiração e entre na ciranda da inocência. Tudo se torna mais leve quando nada é obrigação, mas, ainda assim, escolhemos fazer.
Afinal, tudo o que ela mais deseja é que você aprenda a ser criança outra vez.
