O ser humano mal reconhece os demônios de sua criação.
— Albert Schweitzer
Em uma era tecnológica como a nossa, o ato de pensar tem se tornado cada vez mais raro em um mundo automatizado. Parece que estamos perdendo nossa humanidade, como se tivéssemos criado uma barreira invisível que nos separa uns dos outros, seja na vida real ou nas redes sociais.
A tecnologia não foi feita para ocupar o nosso lugar, mas para facilitar a nossa vida — não para nos tornar dependentes dela.
Tenho visto um número crescente de conteúdos criados por máquinas, e menos por humanos. Isso me entristece.
Detesto falar sobre coisas tristes, mas, às vezes, é necessário. E eu não sou um robô. Sou um ser humano, assim como você, que está lendo esta mensagem (e espero sinceramente que seja um humano também).
É claro que utilizo ferramentas e recursos tecnológicos para facilitar minha vida e meu trabalho, mas até onde isso me permite ser quem sou? E até onde podemos ir sem nos tornarmos reféns dessa tal facilidade?
Boas coisas levam tempo, bons conteúdos também. Textos, então, nem se fala. A criação é algo intrínseco à alma humana, que vai fundo em sua verdade, revelando aquilo que estava escondido em sua natureza.
Talvez estejamos em uma era impregnada de cérebros cansados, e só precisemos descansar para que as coisas encontrem seu devido lugar. E a inspiração não encontra robôs — ela só encontra humanos.
Máquinas oferecem informações de forma rápida e prática, mas conhecimento real exige tempo e reflexão. Absorver conteúdo sem questionamento nos transforma em meros receptores de informações, e não em pensadores — tudo em um ritmo acelerado, frenético, como se não pudéssemos perder tempo.
Mas não podemos perder tempo para quê mesmo?
Que corrida é essa que temos tanta pressa de ganhar? Que atenção é essa que precisamos ter? Quem realmente está interessado em nossos interesses?
É claro que essas ferramentas e recursos disponíveis facilitam nossas vidas e são extremamente úteis, mas não podem substituir a criatividade e o senso crítico humanos.
Todos parecem estar cada vez mais cheios de certezas, e eu, me vejo ainda mais cheia de dúvidas. Afinal, para onde isso está nos levando?
De repente, todo mundo virou professor; todos querem ensinar como fazer isso ou aquilo, mas pouquíssimas pessoas nos lembram de como ser mais humanos. Talvez porque ninguém precise ensinar algo que sempre esteve enraizado em nossa essência, mas que, com a evolução da nossa tão adorada espécie, estamos esquecendo — deixando ir, como as folhas que caem das árvores no outono.
Estamos perdendo os detalhes das coisas, da vida, das pessoas que mais amamos… Estamos perdendo aquilo que nos diferencia dos robôs: a nossa humanidade.
Mas como mudamos isso?
Comece prestando atenção aos conteúdos que você consome: eles realmente estão ensinando algo ou você os consome apenas porque são fáceis? Leia bons livros, aqueles que fazem refletir e ir além das entrelinhas. Procure saber mais sobre quem os escreveu, vá além daquilo que lê.
Descubra bons filmes, busque entender a profundidade do tema, preste atenção na trilha sonora, na dramatização.
Converse mais com as pessoas ao seu redor — sobre qualquer coisa. Saia para caminhar e descubra um novo caminho. Perca-se. Demore-se. Cante, dance, ria, abrace. Olhe mais nos olhos das pessoas.
A tecnologia não é a vilã, pois ela não se criou sozinha. O problema não está nas máquinas, mas na maneira como as usamos. Precisamos aprender a utilizá-las de modo saudável, para que sirvam a nós, e não o contrário. Só assim retomaremos o papel de seres pensantes, antes que nos tornemos apenas engrenagens de um sistema que pensa por nós.
Indicações de leitura:
Em uma época onde poderíamos trabalhar menos e ganhar mais, a ideologia da positividade opera uma inversão perversa: nos submetemos a trabalhar mais e a receber menos. Essa onda do ‘eu consigo’ e do ‘yes, we can’ tem gerado um aumento significativo de doenças como depressão, transtornos de personalidade, síndromes como hiperatividade e burnout. Este livro transcende o campo filosófico e pode ajudar educadores, psicólogos e gestores a entender os novos problemas do século XXI.
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