Racismo. Abuso. Libertação.
A vida de Marguerite Ann Johnson — que o mundo viria a conhecer como Maya Angelou — foi profundamente marcada por essas três palavras. Hoje, quero mergulhar com você na infância e adolescência dessa autora incrível, focando na obra Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, um livro selecionado pela TAG Curadoria que nos convida a uma reflexão urgente sobre as feridas de quem sofre violência.
Uma obra indicada por Conceição Evaristo
Este livro chegou aos leitores da TAG através da indicação de ninguém menos que Conceição Evaristo. Segundo ela, esta é uma das obras que mais a inspiraram em sua própria carreira literária. Maya Angelou conseguiu o que parecia impossível: fez seu nome ressoar globalmente em uma época de extrema discriminação contra a mulher negra.
A infância no Sul segregado
Narrado em primeira pessoa, o livro acompanha Maya dos 7 aos 16 anos, entre as décadas de 30 e 40. Através do olhar dela, enxergamos o racismo estrutural que permanecia intacto mesmo após o fim oficial da escravidão nos Estados Unidos.
A história começa com um abandono: Maya e seu irmão, Bailey, são enviados sozinhos de trem da Flórida para o Sul, para serem criados pela avó paterna. Sem notícias dos pais por anos, as crianças crescem sob os cuidados de Momma (a avó) e do Tio Willie.
Momma: Uma mulher rígida, religiosa e respeitada na comunidade por ser dona de um mercado e ajudar a todos.
Tio Willie: Um homem que enfrentava o preconceito em dose dupla — por ser negro e por ter uma deficiência física.
O trauma e o silêncio
A vida de Maya muda drasticamente aos 8 anos, quando ela e o irmão vão morar com a mãe na Flórida. O que deveria ser um reencontro feliz se transforma em um pesadelo: Maya passa a ser estuprada pelo padrasto.
Sob ameaça, ela guarda o segredo até não aguentar mais. Após revelar a verdade e enfrentar um tribunal onde sua palavra foi questionada, o agressor acaba morto pouco tempo depois de ser solto. O trauma se torna tão profundo que a pequena Maya passa a se sentir culpada pela morte do homem que a violentou.
Por que o pássaro canta?
De volta à casa da avó após o abuso, Maya se retira para dentro de si. Ela para de falar, isolando-se do mundo exterior. É nesse silêncio ensurdecedor que ela encontra refúgio na literatura.
Aqui encontramos o título do livro: mesmo presa em uma “gaiola” de traumas, racismo e silêncio, a alma encontra uma forma de cantar através da escrita e da arte. É um relato visceral sobre como a dor pode ser transformada em potência.
Gostou dessa resenha? Se você já leu essa obra ou quer conhecer mais sobre autoras que mudaram a história, deixe seu comentário aqui embaixo.
Agora, me conta: qual livro mais te marcou pela força da superação?
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