Quem me conhece sabe que sou um ouvinte assíduo de metal extremo e gosto de colecionar CDs, DVDs, fitas e discos. Porém, outros estilos me encantam e mexem com as minhas paixões. Um exemplo disso é a música gaúcha, e o querido Pedro Ortaça é um dos grandes nomes que embalam meus dias de tomar um mate e conversar com minhas queridas mãe e tias. Para tanto, quero comentar um pouco sobre a música “De Guerreiro a Payador”, que, com certeza, é uma das melhores obras do cancioneiro gaúcho.
A letra é interessantíssima e trata do orgulho que Ortaça tem de ser missioneiro. Se coloca (e com razão) como um dos alicerces dessa cultura das missões quando, na letra da música, o cantor diz que:
“Sou o que os historiadores / Procuram lá nas ruínas / Mas não sabem os doutores / Que esta saga não termina / Que ainda restam descendentes / Da terra dos sete santos / E o passado está presente / Em tudo aquilo que canto”.
Aqui o nosso payador e doutor honoris causa pela UFSM traz pra si uma certa dose de responsabilidade por ser uma voz de uma cultura de mais de 300 anos. Inclusive, num dos trechos é ressaltado que Pedro carrega nos ombros todo esse tempo da história.
“Sou filho dos sete povos / Tenho sangue de Sepé”.
É de suma beleza este trecho, onde Ortaça se coloca como um descendente de Sepé Tiarayu, um herói da pátria que lutou até a morte para defender seu povo. É extremamente bonito o carinho que o cantor tem pela sua terra e origens, algo sublime e de tamanha grandeza que só alguém que ama sua descendência pode entender. É um amor de um verdadeiro apaixonado pelo povo e cultura das Missões.
Em toda a canção, Pedro enaltece o povo missioneiro com um extremo carinho e respeito que só um grande artista do nível dele consegue transcrever em versos e melodia. Não para tanto, que ganhou o título de doutor por uma das maiores universidades do país. Uma honraria mais do que merecida para um pilar gigante da cultura gaúcha.
E o carinho por esse povo das Missões fica claro na última parte da música, onde ele destaca a importância do povo que foi esquecido. Lembro que, quando visitei as ruínas de São Miguel, vi muitos indígenas (originários daquele chão) tendo que vender apetrechos para sobreviver. Marginalizados pelo Estado desde a chegada dos europeus em terras tupiniquins.
A importância desse povo que Ortaça destaca fica muito clara no seguinte trecho:
“Pra manter viva a memória / As pedras ganharam nome / E transformaram em história / O que resta desses homens / Pois mais vale a carcaça / De um templo quase no chão / Que os descendentes da raça / Que ragam changuiando pão.”
Para tanto, indo além dessa singela análise de letra, recomendo escutar a discografia do querido Pedro Ortaça. É um convite para passear pela cultura missioneira. Ceva teu mate, conecta a tua plataforma de música e te delicia com o que tem de melhor da cultura das Missões. Vale muito à pena e tenho certeza que o leitor vai curtir muito a experiência.
Eu, por ter descendência indígena, fico muito feliz em ver alguém dando valor a nossa cultura e emocionada ao ver nossas raízes sendo lembrada com carinho.
É muito importante valorizarmos quem mantém viva a nossa história . Parabéns, amigo!