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Palavra & Prosa: conversa com o escritor Elroucian Motta

Escritor, poeta, revisor de textos, tradutor e servidor público. Porto-alegrense de nascimento, formado em Letras pela UFRGS e premiado em diversos concursos nacionais de poesia e prosa. Tem livros publicados e integra várias antologias e coletâneas. É membro de entidades como o Partenon Literário, ALB-RS, AMCL e ALPAS 21.

Guilherme Mossini Mendel: Quem é Elroucian Motta? Como você se apresenta e se define para o público? 

Elroucian Motta: Eu me defino como um apaixonado pela literatura e pelo estudo das línguas. É um assunto que me entusiasma e me cativa. Porém, nem sempre foi assim. Houve um tempo, na infância ainda, por volta dos 7 ou 8 anos, em que a minha paixão era outra: eu queria ser meteorologista! Eu gostava de ler sobre o tempo, os fenômenos meteorológicos, os diversos tipos de nuvens e seus nomes complexos. Não me tornei meteorologista por conta das circunstâncias. Mas até hoje gosto muito. Eu poderia ter sido, quem sabe, o “poeta da meteorologia” (risos), fazendo uma menção ao astrônomo francês do século XIX, Camille Flammarion, que era chamado de “poeta da astronomia”, por seu talento em descrever os fenômenos de forma poética. 

GMM: Quando e com quem você descobriu a poesia, e em que momento percebeu que era poeta? 

EM: Na adolescência, por volta dos quatorze anos, comecei a colocar no papel meus primeiros escritos. Inicialmente, eram frases curtas ou aforismos sobre temas variados. Depois, foram surgindo os poemas. Porém, guardava pra mim, não mostrava pra ninguém. Só anos mais tarde é que criei coragem para mostrar. E foi na Faculdade de Letras que tive o primeiro reconhecimento oficial como poeta, ao ter um poema meu, “Rumores”, selecionado em primeiro lugar num concurso literário interno da Faculdade. Dali para a frente, minha confiança só aumentou e os frutos foram aparecendo. 

GMM: Em que circunstâncias a leitura entrou na sua vida e qual a importância dela para você? 

EM: Em casa, meu pai tinha muitos livros, desde enciclopédias, passando por literatura e livros técnicos. Isso, de certa forma, criou um ambiente favorável à leitura. Na escola, sempre fui aquele aluno que todo professor gostaria de ter (risos). Uma leitura que me marcou muito foi a dos livros da Série Vaga-Lume. Li vários. Eram muito bons. Depois, fui lendo outras obras. Isso teve importância fundamental na minha vida e na minha formação como pessoa.

GMM: Quais são os poetas, vivos ou mortos, que mais lhe marcaram? Há algum que você considera um mestre ou referência constante?

EM: Como aprecio muito literatura, e minha formação acadêmica foi também nessa área, li autores de todas as épocas, de vários estilos, entre portugueses, brasileiros e de diversas outras nacionalidades. Minha biblioteca é bem variada. Assim, posso dizer que muitos escritores me marcaram, não apenas poetas, mas também romancistas, contistas, cronistas e críticos literários. Porém, se tivesse que especificar, diria que dois autores têm forte influência na minha forma de escrever: Clarice Lispector e Fernando Pessoa. São referências constantes.

GMM: O que você busca na sua poesia? Qual é a sua intenção ou desejo ao escrever?

EM: Primeiramente, escrevo para mim mesmo. Aquilo que me vem como inspiração e eu coloco no papel. Depois é que vou compartilhar com as outras pessoas, com os leitores. No momento em que compartilho, minha intenção é que as pessoas leiam e tirem suas próprias conclusões, compreendam o poema da maneira que melhor lhes convenha. Isso é o legal da poesia. 

GMM: Para você, o que torna um poema realmente bom? E qual é o favorito dentre os poemas de sua autoria? Poderia nos mostrá-lo, por favor?

EM: Um bom poema é aquele que tem o poder de nos tirar da realidade cotidiana, causando uma espécie de espanto. A isso se chama estranhamento. E, para conseguir esse efeito de estranhamento, é necessário talento e um pouco de técnica. Para escrever um bom poema não basta simplesmente jogar palavras no papel, tem que saber organizá-las de forma a causar um efeito diferente no leitor, seja por meio da estrutura do poema, seja pelo uso de figuras de linguagem ou associações inesperadas de ideias. Eu tenho vários poemas que posso chamar de “favoritos”, mas, como pediste para eu escolher um, escolho meu poema chamado “Pedras”, que aprecio bastante:

Pedras


Percebi pedras
à beira de mim.
Sentei-me vago
na lonjura do sol.

Como era de se esperar,
as tristezas sorriram
e eram de longe
as mais alegres.

Armaram-se as manhãs
como de costume:
todas enfileiradas
sob a sombra
de árvores nulas.

Eu era o único artifício
das madrugadas
antes de elas descobrirem
que eu usurpava suas noites.

Pintei-me só.

No cordão da calçada,
que escorria lento,
era só desencanto 
de pedras e de pássaros.
Ao longe, os abraços.

GMM: Na sua visão, qual é a importância da poesia na vida das pessoas?

EM: Muitas pessoas não percebem, mas a poesia tem um papel significativo na nossa vida. Ela está presente em músicas que ouvimos, em filmes que vemos, em variados momentos. A poesia, de certa forma, existe desde que o mundo é mundo e acompanha os seres humanos desde os primórdios. Ela torna nossa vida um pouco mais suportável, como diria o filósofo Nietzsche.

GMM: Como nasce um poema para você? Existe algum processo criativo, ritual ou circunstância que favoreça a sua escrita?

EM: Em mim, o poema pode nascer de alguma circunstância específica, de uma música que ouço ou de uma cena que vejo. Já aconteceu, inclusive, de eu sonhar com alguns versos. Só que, nesse caso, tem que dar sorte de lembrar depois que acorda. Algumas vezes, posso “forçar” uma criação, mas não é a maneira mais comum. Rituais criativos não tenho.

GMM: Quais são as suas principais publicações, seja em livro ou na internet, e onde o público pode encontrá-las?

EM: Além de participações em diversas coletâneas e antologias de entidades literárias das quais sou membro e de publicações de poemas meus no Jornal Zero Hora, tenho dois livros solo: “Sem Palavras”, escrito em coautoria com um amigo também poeta e publicado em 2010 por uma editora do Rio de Janeiro, e, mais recentemente, no início de 2025, o livro “Paralelo 30 e outros poemas”, que lancei de forma independente e no formato e-book pela Amazon. O “Sem Palavras” não tem mais exemplares à disposição, mas “Paralelo 30 e outros poemas” pode ser encontrado no site da Amazon a um preço bastante acessível. Também mantenho um perfil literário no Instagram (@elroucian.motta_escritor). Lá eu posto os meus poemas, citações de outros autores, registros de eventos culturais, enfim, tem muita coisa legal pra quem gosta. 

“Paralelo 30 e outros poemas” reúne trabalhos mais recentes do autor, alguns publicados em jornais e revistas literárias ou em outras coletâneas. É uma obra instigante, que nos convida a explorar a poética sensível e profunda desse escritor porto-alegrense. Com um título que evoca a faixa geográfica da cidade de Porto Alegre (o paralelo 30), o livro sugere uma viagem não apenas física, mas também emocional e existencial, por meio de versos repletos de significado. É um convite à reflexão e à busca interior.

GMM: Que projetos literários você sonha realizar nos próximos anos?

EM: Quero continuar sempre participando, na medida do possível, das atividades culturais ligadas às entidades das quais sou membro ou de outras que surgirem. Estou também preparando material para um próximo livro, que se chamará, provavelmente, “O Livro das Incertezas”. 

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