Estava lendo o livro Ostra feliz não faz pérola, de Rubem Alves, e me deparei com uma reflexão profunda sobre um tema ainda muito discutido nos dias atuais: a pressa da vida moderna. Ele aborda isso no texto “Leitura Dinâmica”.
Rubem nos provoca a questionar o real objetivo do que estamos fazendo.
“Por que gastar um mês lendo Grande Sertão: Veredas se, com as técnicas de leitura dinâmica, você poderá lê-lo em uma hora? A vida moderna corre rápida, não há tempo para vagarezas.”
Leitura indicada
Ao narrar o mundo através dos olhos de Riobaldo, Guimarães Rosa constrói um romance fascinante, que mescla sofrimento, luta, alegria, violência, amor e morte em uma prosa extremamente inventiva. Neste clássico arrebatador, as paisagens percorridas pelos jagunços ganham uma dimensão universal e profundamente humana.
Certamente, Guimarães Rosa não ficaria nem um pouco feliz ao saber que sua obra-prima poderia ser lida em tão pouco tempo. Afinal, a complexidade e a genialidade de seu texto se perderiam em olhos que não sabem desfrutar da paisagem.
É interessante essa abordagem, especialmente quando pensamos que, nos tempos modernos, podemos ser quase como robôs — por que não? Hoje, é muito mais fácil ler apenas com os olhos do que com a alma.
Sempre que me deparo com um livro curto e de leitura rápida, sei que precisarei relê-lo, no mínimo, três vezes para realmente compreender parte do que o autor quis traduzir em palavras. Na leitura dinâmica, muitas vezes perdemos a essência das coisas. Obviamente, cada pessoa é livre para fazer o que quiser com sua leitura — mas, a que custo?
Concursos, vestibulares, ensaios, monografias… Tudo isso requer prazos apertados e leituras densas. É provável que a leitura dinâmica se encaixe nesses contextos. No entanto, para realizarmos um bom trabalho, precisamos mergulhar, explorar, refletir. Antes de tentar responder algo, é preciso compreender profundamente a pergunta. Às vezes, tudo o que precisamos é prestar um pouco mais de atenção ao que está diante de nós. Afinal, queremos conhecer a superfície do rio — ou suas profundezas?
Rubem Alves ainda nos provoca:
“Sugiro que a filosofia da leitura dinâmica seja também aplicada a outras áreas.”
Leitura indicada
Ostras felizes não fazem pérolas. Pessoas felizes não sentem a necessidade de criar. O ato criador, seja na ciência ou na arte, surge sempre de uma dor. Não é preciso que seja uma dor doída. Por vezes, a dor aparece como aquela coceira que tem o nome de curiosidade. Este livro é repleto de areias pontudas que machucam, mas que fazem da dor uma razão para sempre continuar. Qualquer página deste livro é um começo e um fim.
Imagine aplicar o conceito de dinamicidade ao nosso cotidiano. Já escutamos os áudios do WhatsApp em velocidade 2x (porque ainda não aumentaram mais opções). Aceleremos a vida!
Por que perder horas do nosso dia fazendo refeições, se podemos comê-las em apenas cinco minutos? E o sono — por que dormir tanto? Quem precisa de descanso quando o mundo nos exige produtividade o tempo inteiro?
Se essa visão de mundo é possível, resta uma pergunta: o que faremos com o tempo que, supostamente, economizamos?
Qual a graça de ouvir música acelerada? De dormir apenas cinco minutos por noite? De não ter tempo para apreciar uma boa refeição? Ou será que adoecemos tanto, a ponto de não perceber que fomos nós mesmos que criamos a nossa própria doença?
Por ora, sugiro que deixemos a dinamicidade apenas para casos extremos de urgência. E deixo aqui um convite: desacelere a vida sempre que possível. Existem muitas ferramentas que facilitam o nosso dia a dia — mas isso não significa que todas sejam essenciais. Convém apenas usarmos a sabedoria das escolhas em nosso favor.
E você, tem conseguido desacelerar? Compartilhe com alguém que precise ler isso.