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No seu tempo não era tão bom assim: a verdade sobre a nostalgia dos anos 90

Sempre escuto pessoas mais velhas que eu dizendo: “no meu tempo é que era bom”, “na minha época a gente saía, conversava e não ficava jogando”. Isso soa meio papo de gente velha (e talvez seja). Antes de mais nada, quero ressaltar que sou entusiasta de boas conversas em mesas de bar, festivais de rock, interação com amigos e tudo que envolva grupos sociais. 

Porém, não demonizo os jogos online, videogames e, nem mesmo, as redes sociais. Confesso que, aos meus olhos, o estilo de vida das gerações mais jovens me é estranho, e eu juro que estou tentando entender e me adequar. Não é uma tarefa fácil não achar que sua juventude não foi a melhor (e talvez nem tenha sido boa), ou mesmo que os seus gostos são ultrapassados. E é sobre isso que quero conversar. Bora?

Tenho pra mim que a infância nos anos 1990 teve ótimos pontos. Era gostosa a expectativa do episódio seguinte de Cavaleiros do Zodíaco, Shurato, Samurai Warriors, Sailor Moon (sim, eu gostava) e outros animes da Rede Manchete. Também era uma delícia colecionar tazos, figurinhas (hábito que tenho até hoje), brincar na rua, andar de bicicleta. 

Tudo isso era realmente bom. Mas essa mesma infância dita mágica só tinha uma grande magia pra quem tinha dinheiro. 

Era muito raro alguém ter uma TV por assinatura pra poder assistir a muitos mais desenhos, bem como era dificílimo ter um brinquedo que não fosse o mais falsificado possível, já que só quem tinha grana de verdade comprava coisa original. Ainda, acrescento que tenho a lembrança de muitos amigos indo à praia enquanto eu não tinha dinheiro pra tal. A gente se apegou a esses desenhos da TV aberta porque era o que tinha. No final, esse carinho todo com as animações da televisão só se criou pela falta de acesso a mais coisas. Onde eu morava e dentro da minha realidade, filho de caminhoneiro e doméstica, era o que tinha pra fazer e ver.

Mesma coisa com o tal do “brincar na rua”. Talvez as gerações passadas (incluindo a minha) só brincavam na rua porque não tinha outra coisa. Era bom? Sim! Mas, também, era o que tinha pro momento. Um videogame caro não era pra qualquer um (e eu garanto que, nos anos 1990, se você tivesse um Playstation, ia sair bem menos de casa). Uma viagem pra fora do estado não era pra quem queria. Mesmo uma biblioteca pública, uma praça boa pra brincar, poder ir pra cidade vizinha (onde, no meu caso, era muito maior que aquela onde moro e tinha algumas opções a mais), era só pra quem tinha um poder aquisitivo maior. Shopping era coisa dos nossos sonhos, por exemplo.

Lembro muito bem de quando acessei a internet pela primeira vez. Fiquei maravilhado. Era algo que toda a minha geração queria. É inegável o fato de que, pra nós, ter internet era o ápice. Era um desejo de todos, e esses desejos eram realizados por quem tinha grana de verdade. No final, estamos julgando uma geração toda por ter acesso ao que nós não tivemos.

Entendo que haja um exagero no consumo de conteúdos ruins nas redes sociais e que devemos melhorar isso. Mas, sem internet e redes sociais, eu não teria conhecido as bandas de rock/metal que conheço, não teria acesso a diversos bons portais de notícias, a alguns bons escritores de quem, inclusive, comprei livros; também não consumiria nada sobre esportes, nem mesmo conteúdo sobre nostalgia que, sim, vira e mexe eu vejo.

Além disso, acho meio tosca a ideia de dizer que músicas e filmes só são bons até uma certa época. Não dá pra dizer que filmes como “Rocky”, “Rambo” e uma penca de enlatados de ação são extremamente superiores aos filmes da Marvel (até porque são todos propagandismo dos EUA). Inclusive, recomendo assistir “Meia noite em Paris”. Não vou dar spoiler, assistam. 

Existem muitos filmes atuais que são bons e aclamados pela crítica, assim como as músicas. Eu posso, tranquilamente, fazer uma lista de bandas de rock/metal que são maravilhosas. Ficar preso nos anos 1980 impede experiências únicas de audição. Para tanto, recomendo as bandas Trovão, Subversivos, Tuatha de Danann, Crypta e Atlantis. O resto é com vocês.

Acredito que toda essa ode a um passado que, muitas vezes, não existiu, é por saudades da juventude. Quando se é jovem, não há preocupação com trabalho, boletos, impostos. Só se quer curtir, ouvir um som, se divertir. Daqui a alguns anos vamos estar ouvindo que “BTS é que era música boa” ou que “o filme da Barbie é um clássico”. Esperem e verão.

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