A poesia tem esse poder surpreendente de nos fazer mergulhar profundamente no íntimo dos nossos sentimentos, na esperança de desvendar o mistério que habita dentro de nós. Ela nos desafia a olhar para dentro, a seguir um fio que nos conduza pelos caminhos mais obscuros e pouco acessados do nosso ser e, por fim, a trazer à luz o que parecia oculto.
Nessa convidativa jornada de Contudo, uma coletânea de poemas que nos leva a confrontar sentimentos e ideias opostas que habitam em nosso interior, passamos pela “Consciência”, como se estivéssemos diante da nossa própria verdade: questionando o que sempre esteve guardado, sentindo, duvidando de quem somos e de por que somos. Olhamos para o melhor e o pior de nós, sofremos, sorrimos, choramos e, enfim, transformamos o olhar sobre nosso mundo interior. Poemas como “Solidão”, “O demônio tenta” e “Trânsito mental” dão corpo a essas experiências.
Depois dessa consciência íntima, voltamos o olhar ao mundo exterior em sua crueza: falhas, dificuldades, intimidações e questionamentos que nos atravessam. E é nesse movimento que surgem “Contrapontos” necessários para compreender o que, apesar de todas as contradições, ainda nos mantém vivos neste estranho e competitivo cenário.
Enxergar a realidade pode não ser reconfortante, mas nos oferece um novo olhar — mais essencial, mais experiente, ainda que marcado por cicatrizes — daquele ser que não teve outra escolha senão encarar a si mesmo. Difícil não destacar a força de poemas como “Qualquer um é alguém”, “O plano do diabo” e “Sou muito preconceituoso”, este último, entre os que mais me tocaram.
Mas, como nem tudo está perdido, há sempre uma centelha que insiste em permanecer acesa, lembrando-nos de que é possível seguir adiante. Ela surge em “Constatação”, conduzindo-nos pela esperança de dias melhores, pela salvação daquilo que ainda resiste nas profundezas de nossas almas, em um lugar que a racionalidade, tantas vezes cega, não consegue alcançar.
A jornada poética de Contudo, escrita com maestria e profundidade em versos ora curtos e precisos, ora extensos e arrebatadores, nos guia por caminhos que todos trilhamos. Os sentimentos do autor nos convidam a refletir sobre nossos modos de sentir e ver o mundo. A obra revela que cada um de nós carrega luz e sombra, mas que é possível descobrir beleza em ambas. Poemas como “Restauração”, “Coisas antigas” e “A arte de versejar” iluminam essa percepção.
Contudo nos instiga a olhar para as dores da vida não como fardo, mas como parte da jornada; a questionar nossas relações diante do sofrimento que o mundo também experimenta; e, por fim, a reconhecer o que já não nos serve — em direção ao que somos, ao que fomos e ao que ainda podemos ser.
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